segunda-feira, 23 de março de 2020

A importância da Ciência e o Desprezo da filosofia



              A Matemática é fundamental para entendermos os fenômenos do mundo e do próprio ser humano, ninguém duvida disso. Porém muitos duvidam da importância que tem a Filosofia, questionam (Questionar não é filosofar?) seu valor e falam com desdém:  “Para que Filosofia?”  E expulsam a disciplina das escolas, das empresas, do cotidiano...
              Então, quando a sociedade deixa de indagar sobre o significado, sentido e finalidade das coisas e da existência, a nossa vida fica sem rumo, principalmente quando enfrentamos uma catástrofe, moléstia ou qualquer coisa que nos tire da zona do conforto ou das farsas e ilusões (como o coronavírus). Aí surgem as salvadoras dos indivíduos: a Psicologia, a psicanálise, a psiquiatria e, claro, a medicina; não falemos aqui do papel das religiões e seitas que oferecem a salvação do corpo e da alma, inclusive a salvação eterna! Tudo bem, cada um se agarra na tábua que tem. Há “tábuas” que nos mantém na superfície do rio e outras que nos fazem afundar mais rapidamente; mesmo assim, muitos morrem felizes, acreditando.
               Mas uma coisa ninguém pode negar: todos buscamos um sentido e uma razão para o que fazemos, sentimos, pensamos e acreditamos; procuramos uma razão e um sentido para o nosso existir; e este sentido não é uma mera equação individual. Ela é coletiva e transcende nosso ambiente familiar, tribal, regional e mesmo nacional. O sentido é sempre global, sua equação está na esfera do humano e da humanidade. E esta equação a Matemática e nenhuma das Ciências pode responder sozinha e nem mesmo todas em seu conjunto, porque o sentido não é a meras somas das partes; ele depende de uma formulação e de uma fundamentação transcendental (no sentido epistemológico), para além da concretude dos fenômenos e dos indivíduos e de suas interpretações particulares. 
              Aqui surge a função da Filosofia e do filosofar cuja reflexão não  se resume e não termina na simples ou complexa explicação do mundo, dos fenômenos,  das coisas e da vida (biológica,  social, política,  econômica...); filosofar é a busca perene do significado último da existência que é sempre eu-com-os outros-no-mundo (cf. lebenswelt, conceito hursseliano de “mundo da vida”); e ser com-os-outros-no-mundo supõe dialeticamente o não-mundo, o não-ser, supõe, para os seres humanos, a morte, não como fim biológico,  mas como fim da existência do ser . Só o ser humano sabe disso, o que torna o filosofar não um diletantismo, um luxo, mas uma necessidade humana. Quem nega o filosofar está negando uma das necessidades básicas o SER humano.
              Como Albert Camus, ficamos revoltados (“L’homme révolté” - 1951) com esse mundo do mercado e dos negócios que faz da vida (saúde/doença, educação,  segurança, religião, tudo, uma simples mercadoria regida pelas leis do "deus-mercado"...e constantemente tentam fazer da Filosofia um mero instrumento desta ou daquela moral, um instrumento da lógica instrumental, um verniz requintado de teorias psicológicas, e o que é pior: simplesmente desconhecem a importância essencial da Filosofia na constituição da Ética, da Educação,  da Política,  da Estética, da Ecologia...Não é à toa que as grandes "autoridades" do mundo se sintam encurraladas diante de um simples, todavia perigoso coronavírus, enquanto a população sente  medo e se vê desamparada.
              Amanhã será outro dia e "eles" continuarão a desprezar a Filosofia e o valor da Vida para além dos lucros, luxos e vaidades! Poucos ouviram o discurso que Sócrates fez aos seus discípulos logo após sua condenação à morte, pelos poderosos de seu tempo, em Atenas há 2.400 anos.
              Filosofar e re-agir é necessário!

São Paulo, 23/03/2020.
Prof. Chico Gretter, mestre em Filosofia e História da Educação, Diretor da APROFFESP. 

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